Metade já é quase

Publicado: 08/02/2012 em Tripalavras

“If I had no place to fall and I needed to
Could I count on you to lay me down?”

O espelho encara-me desafiador
com seus olhos cansados e decididos.
Continue tentando!

Renega o contrário da verdade,
mas queira ela de trás para frente
e salteado.

Migrante de um país sem bandeira,
um dia irá colonizar seu coração
.
Não foi forjado para as alegrias levianas,
dos atores e comediantes
que pretenciosamente fingem
decifrar a felicidade.
Incontáveis,
os métodos infalíveis são palavrório desavergonhado,
ingenuidade.
A vida também é falhar,
e essa é a maior beleza deste fluir

Não há ninguém a quem clamar
para aliviar a queda,
portanto permaneça.
O descanso virá depois da ânsia, e da repúdia,
depois de cavar com as unhas em carne,
a lama que antecede a liberdade

Renega o contrário da verdade,
mas queira ela do avesso,
por fora e por dentro.

Permita as tolices do teu peito, que destina cartas ao passado
A alma as vezes pede por correspondência,
mesmo que seja atemporal
Escreve a filosofia deste tempo que é seu,
em memória
às palavras herdadas.

Metade já é quase,
e o pior é a próxima parte.
Não é a do beijo que parte,
Nem do abraço sem encontro,
Não poder cair
ensina a ficar de pé.

 
por Nelson Lucyszyn Jr.

Minha irmã

Publicado: 26/01/2012 em Tripalavras

Flor brotada em canteiro descuidado
subitamente cresceu
Desabrochando pétalas sob o orvalho,
pranto solitário da manhã

Distraído, acordei um dia e lá estava
em rubra liberdade,
fragilmente exposta à rotina da vida

Nem vi a primavera que lhe acordou
da fotografia de infância
pra realidade miserável dos homens

Quisera eu ser árvore, abrigo
das chuvas e tempestades
Jardineiro de sensível habilidade
para podar cada solidão

Mas não

Sou tão somente quem veio antes
e conheceu-te pequeno ramo
Posso apenas este carinho,
falsear de poesia meu amor,
e rogar aos anjos que lhe cuidem

por Nelson Lucyszyn Jr.

Entrei no taxi, atrasado como de costume.
- Rodoviária, por favor. Será que conseguimos chegar lá em 20 minutos?
- Tranquilo.
E ele seguiu com toda tranquilidade mesmo, no alto de seus sessenta e tantos anos. Acho que depois que já passamos por tanta coisa na vida o tempo não incomoda mais, afinal, se foi possível sobreviver ao infinito de voltas do ponteiro, não seria um terço de hora que faria alguma diferença. Domina-se o tempo quando as ações predominantes são conjugados no passado, e quando se é indiferente ao derradeiro verbo.
O telefone toca.
- Que foi? ele gentilmente atende – Então quer dizer que eu tenho que sair daqui, do meu trabalho, pra ir até aí levar comida pra um bando de marmanjo vagabundo, é? Eu não acredito nisso! Estou no meio de uma corrida, depois te ligo.
Ele me pede desculpas.
- Não se preocupe, sem problema.
- Era minha outra mulher. Passou a noite toda com os irmãos que vieram do Rio, jogando baralho, escutando música e bebendo. Aí o bonitão aqui tem que sair do trabalho e ir lá levar o almoço pra cambada.
- Complicado.  respondi sem um mínimo de comoção com o tormento do motorista, achando que não iria conseguir chegar a tempo, mas resolvi continuar – Outra mulher?
- Pois é, quando o sujeito quer se incomodar ele realmente consegue, tenho duas.
- Não bastava uma resolveu logo ter duas? ri – E como funciona isso?
- Nem me fale! Sou casado com a primeira há quase 40 anos, e fiz esta besteira de arrumar uma segunda há 23. Agora estou nessa situação, com uma aposentadoria que poderia razoavelmente me manter, tendo que continuar trabalhando pois não há dinheiro que chegue.
- Mas…e uma sabe da outra? Não há brigas?
- Sim, elas sabem. Tenho três filhos com a primeira e dois com a segunda. Nesse momento me olhou pelo retrovisor com olhos opacos, quase sem cor. Bolsas inchadas sob os olhos, tinha um vasto bigode. Não parecia mover um músculo sequer do rosto pra falar, apenas a parte inferior da boca. E continuou:
- Não, não tem briga não senhor, e como poderia? Sustento as duas, sem mim não teriam onde cair mortas. Quando conheci a segunda, depois de nos mudarmos pra Curitiba, cheguei pra patroa e disse que tinha arrumado outra mulher. No começo não gostou muito, mas não tinha o que fazer, viu que eu gostava da outra e acabou se acostumando, sabe como é.
- Imagino. menti, não imaginava – Então o senhor não é daqui?
- Sou do Rio Grande, servia lá na fronteira com o Uruguai. Quando terminou a ditatura acharam melhor transferir todo mundo sabe, devido ao trabalho que fazíamos.
- Sei.
Nesse momento pensei nos presos políticos, nas pessoas levadas muitas vezes sem maiores explicações. Quantos ele já havia torturado? Assassinado talvez?
Foi quando chegamos ao estacionamento da rodoviária
- Então o senhor irá levar os mantimentos pra turma?
- E há outro jeito? Ah, mas deixa, que não sem dar uma boa de uma correção naqueles folgados, isso sim!
- Esta certo, muito obrigado e tenha um bom dia.
Desci do carro lembrando do grande Nelson Rodrigues, realmente essa vida é como ela é.
Cheguei com cinco minutos de antecedência.

por Nelson Lucyszyn Jr.

O que faz lembrar

Publicado: 17/01/2012 em Tripalavras

Interessante pensar nos mecanismos pelos quais trabalha nossa memória, como somos afetados pelas percepções sensorias, e na relação entre os acontecimentos guardados na lembrança e nossos sentidos.  Acho que todos nós temos vários links entre nossas lembranças e sensações referentes, sejam músicas, cheiros, sabores.
Quando escuto essa música do Garbage lembro instantâneamente de uma noite lá no ano de 2000, e daqueles momentos com minha amiga Lis, ao som do toca fitas, daqueles modelos que tinha a opção auto-reverse (alguns devem lembrar, era a origem da função repeat). E a lembrança é muito clara, se fechar os olhos quase consigo me sentir novamente naquele quarto escuro. Da mesma forma alguns sabores me transportam, como por exemplo o de tijolinhos de abóbora, doce que minha vó sempre fazia, e que hoje tem sabor de infância.
O cheiro é também arquiteto que reconstrói nosso passado, e talvez a lembrança perfumada seja a que nos traz as mais concretas recordações. Normalmente nos faz lembrar de pessoas, e quando sentimos algum cheiro específico a sensação do passado se faz incrivelmente presente. Às vezes quando sinto um certo perfume chego a me sentir um tanto desnorteado, afetado de tal forma pela falsa presença que meus sentidos demoram alguns segundos até se reconstituírem da realidade.
Enfim, os exemplos são diversos, desde a cor da luz do dia iluminando a paisagem, até a sensação da grama sob os pés descalços. Mas e o quê será que nos faz sermos lembrados?
Seria algum cheiro, o que me faz visitar alguém sem que eu saiba? Alguma sensação, momento, sabor, retomando em alguma pessoa o que já compartilhamos? Espero que não seja um gosto amargo, mas ao certo nunca saberei.
Seguiremos construindo nossas lembranças, para que no futuro tenhamos estas visitas, de nossos amigos, amores, para reviver num outro tempo este abraço que hoje nos damos.

por Nelson Lucyszyn Jr.

Versos inacabados

Publicado: 10/01/2012 em Tripalavras

Mudança de ano para muitos significa se desfazer das coisas do ano que passou, roupas velhas, objetos acumulados nas gavetas do quarto e da memória. Nunca fui muito fiel a este hábito um tanto quanto simbólico, mas reconheço que há também uma função prática nisso: dar lugar a coisas novas. Portanto resolvi me desfazer de alguns escritos, jogando fora algumas páginas com idéias incompletas, algumas totalmente merecedoras de serem destinadas ao lixo mais próximo, outras talvez um pouco menos. E dentre estas separei algumas pra deixar por aqui, representando estes meus versos inacabados.
Nelson Lucyszyn Jr.

1. Parte inteira

Não minha amiga, não haverá pano pra manga
Nesta colcha de retalhos que é nossa vida
cada lembrança ficará assim
Nos pedaços
não haverá sobras para usar depois
nem medida do que já foi

Eu mesmo hoje estou um trapo
meio amarelado, meio pela metade
Vou dobrado ao meio,
numa pasta no fundo do armário
Mas no fundo isso me basta
Sei que lá no fundo o que sinto é inteiro
Mesmo faltando uma parte

2. Amanhecer antes de dormir

Chego em casa junto com a manhã,
e o som dos pássaros
Passa o primeiro ônibus do dia,
levando também
a noite pra casa
Chego junto com o sol
e a cor do céu
Toda vez que chego em casa
junto com a manhã
é assim
chega comigo tua lembrança
que levo junto pra minha cama
pra sonhar que amanhecemos juntos

3. A estação acabou

Com o outono
foram as últimas palavras bonitas
passou
levou exatamente o tempo
previsto
Nas folhas secas varridas
do chão
foram as minhas
as tuas
Nem deu tempo
de juntar

4. Antes distante

No toque da tua mão fria
A resposta que faltava
enquanto a mão te sentia
No toque da tua mão fria
Teu carinho distante
era tudo que havia
Dor maior não poderia,
ainda que nunca mais sentisse
as tuas mãos nas minhas.
Tanta dor não causaria
quanto o toque da tua mão fria

5. Georgia não cantou

Cante para mim uma canção bonita
ó minha grande amiga
uma melodia ensolarada
feito a manhã da primavera

Os pássaros
no jardim da minha vida,
já não pousam mais
Enquanto teimam em seu vôo
temo que meus ouvidos
já não possam escutar

pardais
sabiás
bem-te-vis
e eu aqui
sem ouvir nada

Um coração sem música
não é um coração,
minha gentil amiga
Portanto cante
cante uma canção com o cheiro do campo
laranjeiras, eucaliptos
cante com sua voz de girassol

Amanhã e sempre

Publicado: 29/12/2011 em Tripalavras

Que todos possamos brindar à vida,
sorvendo em transbordantes cálices
a possibilidade infinita

Elevai sobre o não,
que por vezes ausenta a esperança,
vossos olhares

Como a planta,
que brava sustenta-se
num solo estiado

E a rocha que permanece
Apezar do asfalto,
e a tempestade dos homens

Sejamos capazes
de olhar para o céu
Nos sentindo minúsculos,
e estelares

Frente ao novo,
e a mudança,
tenhamos coragem

Ao princípio
do que somos
a intransigência.

Que o desconhecido
encaremos com familiaridade
E na paisagem diária
encontremos o inesperado

Visite-nos o impossível
quando melhor lhe aprouver
Na queda, e no equilíbrio,
esteja fundada nossa fé.

por Nelson Lucyszyn Jr.

Me concede esta dança?

Publicado: 21/12/2011 em Tripalavras

Um verso pra dançar com as palavras
Pontuar a cadência com a displicência de um tango.
Gestos, pernas e caras,
que ignoram a métrica
mostrando o tom dos olhos

Pra dançar
não é necessário pensar.
Sentindo é que se encontra
o movimento
Queria assim o pensamento
ausente,
num verbo que fosse apenas sentir

Que botasse os pingos nos “i’s”
com a leveza dos passos no salão
Palavras não para serem pensadas,
já cansaram de tanto pensamento
até poderem descansar no papel

Portanto que não sejam interpretadas,
coreografia calculada não faz o meu gênero
Antes uma escorregada
com a graça da bailarina encabulada,
que a perfeição
da intenção inventada

Não penses no significado.
Peço apenas que não penses
Sinta com meu sentir
o vento, as estrelas
e o aperto no peito

Seja a página em branco
salão das palavras sentidas
Sinta a água quente no banho da manhã,
o gosto volátil da noite abafada
Sinta a mão que não sabe dançar
mas arrisca alguns passos.

por Nelson Lucyszyn Jr.